O LUTO PATERNO E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO DA FILHA UMA ANÁLISE JUNGUIANA DO FILME: EU

O LUTO PATERNO E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO DA FILHA UMA ANÁLISE JUNGUIANA DO FILME: EU

por Jéssica Xavier de Araujo Oliveira

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Resumo

O presente artigo teve como objetivo compreender o processo de individuação em filhas, estabelecendo uma conexão com conceitos da psicologia junguiana e com o filme “Eu”. A pesquisa analisa a dinâmica da relação pai-filha, destacando tanto os impactos positivos quanto negativos dessa interação no desenvolvimento emocional e psicológico da filha. O estudo aborda também o luto simbólico e concreto que a filha vivencia em relação a ausência do pai, e como essa perda pode manifestar-se em sintomas psicossomáticos, como ansiedade, pânico e doenças crônicas. Por fim, o artigo discute as implicações dessa relação e das experiências de luto no processo de individuação da filha, sugerindo que a forma como a filha lida com a perda e a relação com o pai pode influenciar significativamente seu desenvolvimento emocional, psicológico e até mesmo físico.

1. INTRODUÇÃO

O crescimento psíquico ocorre em relação às experiências de um pai e de uma filha com ele. Quando o pai é ausente ele negligencia o relacionamento com ela. Ele passa a ser associado com anseios, tristezas, amor frustrado, raiva e fúria, opressão e desejo. Esses sentimentos contraditórios causam estresse ao corpo e à alma, e disso emerge a urgente necessidade da filha se encontrar. (Schwartz, 2023, p.17)

A ausência do pai pode provocar um grande impacto no desenvolvimento psicológico e emocional da filha. A filha que cresce sem pai, vivencia o luto simbólico, resultando em marcas profundas em sua alma. Quando esse luto se torna concreto, leva consigo toda esperança inconsciente que essa filha alimentou. Segundo Jung (2013), um ponto que se destaca nos estudos de Freud, é sobre o pai ser de natureza especial e ser de uma influência maior na moldagem do destino da criança. A relação que esse pai estabelece com a filha, moldará o seu desenvolvimento psicológico.

Assim como Jung e Freud, outros teóricos também colaboraram para o campo da psicologia, como Melanie Klein e Donald Winnicott, psicanalistas que contribuíram com seus estudos e pesquisas no desenvolvimento infantil. John Bowlby, psiquiatra e psicanalista britânico, conhecido pelo seu trabalho no desenvolvimento infantil, onde contribuiu notadamente com suas pesquisas sobre a relação mãe-bebê e a teoria do apego. Na psicologia analítica quem iniciou os estudos voltados ao desenvolvimento infantil foi Erich Neumann com suas pesquisas e Michael Fordham, colaborando significativamente com suas observações e estudos na clínica infantil. O que acontece é que nenhum desses autores explora de forma profunda a figura paterna no desenvolvimento da criança — especificamente a relação pai-filha — desse modo, o objetivo deste estudo é explorar como essa filha vai se desenvolver na ausência desse pai.

A relação entre pai e filha é uma dinâmica complexa que desempenha um papel crucial na formação da identidade e do bem-estar emocional de uma criança. É na interação pai-filha que a criança desenvolve o conceito arquetípico Animus, conceito este fundamental para o bom funcionamento da psique (Lima, 2012). Caso essa interação não aconteça, a filha desenvolve um ego frágil, que irá moldar-se e estruturar-se nos primeiros anos de vida através da relação que foi estabelecida entre os pais.
Para Jung, o processo de individuação é uma unidade indivisível, ou seja, é a totalidade. Parisi (2009), afirma que o processo de individuação “trata-se de um caminho e não de um alvo ou estado alcançado, estático ou concluído”, ou seja, não é a chegada no cume, mas os desafios enfrentados durante a trilha. A individuação é uma fase fundamental no processo de ampliação da psique e esse processo se desenvolve à luz das experiências pessoais durante a vida. Além disso, abordaremos a teoria do apego e sua importância na formação de vínculos seguros, bem como as implicações do luto e do trauma na vida emocional da filha quando a formação desse vínculo não foi desenvolvida de forma estruturada. Ao entender essas dinâmicas, podemos iluminar as complexidades da ausência paterna e suas repercussões na saúde mental da filha.

O presente trabalho tem como objetivo utilizar a perspectiva da psicologia analítica para analisar e compreender os fenômenos da relação pai filha, luto paterno e o processo de individuação através do filme “EU”, disponível na plataforma Globoplay. Este documentário se destaca por oferecer uma visão abrangente e interessante sobre saúde mental, reunindo contribuições de profissionais de diversas áreas do conhecimento, tanto da ciência quanto da espiritualidade. A narrativa traz à tona o sofrimento psicológico e o adoecimento da alma quando a saúde mental e física se entrelaça com a experiência do luto, ameaçando as estruturas do ego.

O luto pode ser vivenciado de diversas formas como: luto por desaparecimento; perda de um animal de estimação; a morte repentina de alguém especial; o distanciamento de um filho com dependência química; a separação dos pais ou a perda de um emprego, ou seja, essas experiências traumáticas podem ser vividas tanto de forma simbólica como concreta. O trabalho se aprofundará nos dois tipos de luto, que são vividos pela protagonista após o luto paterno simbólico se tornar concreto e esse é o ponto central para a compreensão de sua trajetória emocional.

O luto é um processo complexo, marcado por fases que vão desde o recebimento da notícia até a integração total. De acordo com Verena Kast (2023), em seu livro “O sentido do medo” aborda sobre três fases do luto, sendo elas: a negação; as lamentações e sintomas e o eu individual. É importante ressaltar que o luto não possui um tempo determinado, sendo uma experiência subjetiva, onde cada indivíduo vivencia suas emoções de forma única. A morte é frequentemente vista como um tabu na sociedade e a dor do luto muitas vezes é vivida isoladamente. Parks (2009) explica como o vínculo estabelecido entre a pessoa morta e o enlutado implicará na elaboração do processo de luto.

A relevância deste trabalho está em pesquisar a influência da figura paterna na vida da filha e como o rompimento simbólico e/ou irreversível irá impactar no processo de individuação. O trabalho é fundamentado nos princípios da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e o objetivo central é promover conscientização pessoal, terapêutica e coletiva. Segundo a analista junguiana, “o arquétipo da filha precisa ser explorado para promover uma cura individual e coletiva” (Schwartz, 2023, p. 16)

1.1 OBJETIVO DO TRABALHO

Este trabalho tem como objetivo investigar o impacto da ausência paterna na vida da filha à luz da psicologia analítica.

1.2 JUSTIFICATIVA

A ausência paterna pode levar a consequências negativas e impactar profundamente o desenvolvimento psicológico da filha, podendo evoluir a doenças emocionais e físicas. A psicologia analítica é uma abordagem profunda, podendo auxiliar na integração de conteúdos inconscientes que conduz a vida do indivíduo de forma negativa e conscientizar de forma coletiva a importância da figura paterna.

1.3 MÉTODO

Para o presente trabalho, foi realizada uma revisão bibliográfica narrativa através do google acadêmico, scielo e fontes bibliográficas com conteúdo teórico abordando conceitos da psicologia analítica como a obra da autora Susan E. Schwartz, “O efeito da ausência do pai nas filhas – Desejo paterno, ferida paterna”, nas OC de Carl Gustav Jung e outros autores junguianos. A pesquisa é qualitativa e o filme “EU” é utilizado como material de análise. O trabalho inicia com uma pesquisa sobre a relação pai-
filha, caminha para o luto simbólico e concreto do pai ausente, as consequências dessa relação e os sintomas e como ocorre o processo de individuação.

2. SINOPSE

O filme “EU” é baseado em uma história real de Ludmila Dayer. Dayer vivenciou o luto simbólico e concreto de seu pai, enfrentou crises de pânico e foi diagnosticada com uma doença crônica após o falecimento dele. A protagonista inicia uma jornada de autoconhecimento, buscando caminhos de cura para seus traumas. O filme se divide em oito partes: O início; O autoconhecimento; A origem período pré-natal; O mapa gestacional; Hierarquia e ancestralidade; A biologia da crença; O poder do coração e A cura. O filme tem a participação de cinco profissionais: Autor e astrólogo; Médica, mentora e consteladora familiar; Xamã; Neurocientista e Médica Psiquiatra. Os profissionais participam do filme de forma dinâmica, vão se alternando e comentando sobre as etapas do desenvolvimento do indivíduo em um contexto geral, mas que se encontram conforme a narrativa do filme é contada. O filme é interpretado pela atriz Fernanda Souza, que narra a história de Dayer e sua saúde mental. O filme é produzido e dirigido por Ludmila Dayer.

3. RELAÇÃO PAI-FILHA

Historicamente, a filha era considerada de pouco valor e propriedade para troca; ela pertencia ao pai e seus modos de tal maneira que sua ausência ou sua forma de agir, especialmente em relação a ela, nunca era questionada. O espaço intocado em torno do pai psicológico, pessoal e culturalmente inunda sua influência sobre o inconsciente. (SCWARTZ, 2023, p. 24)

A autora do livro “O efeito da ausência do pai nas filhas”, aborda sobre a importância da figura paterna no desenvolvimento da filha e os impactos – pessoal e coletivo – caso essa figura seja ausente fisicamente e psicologicamente. É importante ressaltar que não necessariamente o pai ausente é aquele que não está fisicamente, pois existem pais presentes fisicamente, mas que não atende as demandas emocionais da filha.

A protagonista relata que cresceu sem o pai e reflete sobre o sonho que tinha desde criança que poderia estar ligado a coisas que sentiu na barriga de sua mãe e quando bebê. Segundo Jung (2013), o pai é um arquétipo forte e influente que habita o interior da criança. No filme, a psiquiatra afirma que a primeira escola da vida é o útero da mãe, onde é plasmado todos os valores que o indivíduo carregará ao longo de sua vida e essa escola tem um peso muito maior que a universidade, porque é uma escola de valores. Fordham (1994, p.98) fala sobre o desenvolvimento do bebê durante a vida intra-uterina e sobre as hipóteses de que no período gestacional tudo que a mãe sente é transmitido ao feto.

Bowlby (2024) dividiu a teoria do apego em três padrões, seriam eles: apego seguro, apego resistente à ansiedade e apego ansioso e evitativo. Esses padrões são promovidos pelos pais, mas Bowlby atribui especialmente à mãe no início da vida. O apego seguro, que está relacionado a um padrão onde a criança sabe que seus pais estão disponíveis para atender suas necessidades. No apego resistente à ansiedade, a criança não tem certeza se pode contar com os pais. No apego ansioso e evitativo, o indivíduo sente que as suas necessidades serão rejeitadas, ou seja, não tem confiança. Schwartz (2023) afirma que o contato inicial com o pai é importante para o bom desenvolvimento da personalidade e padrões de apego.

A presença de um sistema de controle de apego e sua ligação com os modelos funcionais de self e da(s) figura(s) de apego que são construídos na mente durante a infância são considerados características centrais do funcionamento da personalidade ao longo da vida. (Bowlby, 2024, p. 144)

A protagonista relata que sempre sentiu um vazio pelo fato de crescer sem a presença de seu pai, sentindo-se como um “peixe fora d’água”, como se ninguém fosse capaz de compreendê-la e de amá-la do jeito que ela gostaria e sabotava qualquer tentativa de quem quisesse provar o contrário. A psiquiatra, no filme, menciona sobre o neuropeptídeo (uma molécula da emoção, da memória e que também cria crenças). Nessa relação observamos o padrão de apego ansioso e evitativo, reforçando inconscientemente o “abandono” e “ressentimento” do pai, e crenças limitantes do tipo: “se nem meu pai foi capaz de me enxergar e amar”, logo, ninguém seria, como afirma Schwartz (2023), a filha cria uma realidade onde o mundo é um lugar de rejeição e então ela permanece inerte diante da vida, afinal é por intermédio do pai que essa filha reconhece a si mesma.

A situação da ausência de um pai revela a questão de como um pai sonha com sua filha. Quais são seus desejos para ela? Quando ausente, ele não percebe as necessidades que ela sente por ter vínculos bons, ou como ele pode prejudicá-la com sua partida. Essa falta de consideração cria áreas delicadas na filha marcadas por diversos impasses psicológicos. Porque ela não aparece na visão dele, não tem reflexões dele, o que impede seu autodesenvolvimento. (SCHWARTZ, 2023, p.17)

A ausência da figura paterna pode ter um impacto significativo no desenvolvimento emocional e psicológico da filha. Quando a filha cresce sem a presença do pai ou quando esse pai é presente, mas não supri suas necessidades e não mantém um vínculo afetuoso e atencioso, a filha encontra obstáculos ao estabelecer relações saudáveis e tem uma ideia distorcidade de si, visto que não foi construído uma base segura, resultando em sentimentos de abandono, rejeição e desvalorização, com tendência destrutiva à saúde mental e física.

De acordo com o neurocientista que participa do filme, os pais que passaram por situações traumáticas antes da gestação, seus os filhos carregam dentro de si um sistema nervoso desregulado e alterações no eixo HPA que regula o estresse, ou seja, é como se a criança nascesse com uma memória corporal, onde foi formatado que o ambiente pode ser conflituoso. A protagonista conta que a única memória que ela tem do pai é de uma presença pesada, que lhe causava medo. E quando perguntam a ela sobre ter raiva do pai, ela conclui que não tem como ter esse tipo de sentimento por alguém que ela não conhece.

Segundo Schwartz (2023), a filha não externaliza sua frustração e raiva ao pai, mas internaliza esses sentimentos negativos em seu interior. Essa memória que a protagonista relata ser pesada e lhe causar medo, onde se pode observar o complexo, como diria Jung. Susan aborda sobre a necessidade que a filha tem de receber esse afeto paternal para se desenvolver. A raiz desse núcleo onde está o complexo é arquetípica. “Os complexos explicam muitos dos conflitos e obstáculos encontrados nos relacionamentos.” (LIMA, 2012). Para compreender o arquétipo do pai, precisamos primeiro entender o arquétipo urobórico, onde provém o arquétipo do pai e da mãe, visto que o arquétipo materno é feminino e masculino e vice-versa. Segundo Neumann (1991), no início da vida o Self se manifesta no arquétipo da mãe e depois no arquétipo do pai. Quando a figura paterna é ausente, surge um conflito interno no momento em que o Self busca encarna-se nesse arquétipo.

A protagonista relata que cresceu sem a presença do pai e que foi criada pela mãe e os avós. Ela fala que como a sua história – filha de pai ausente – tem tantas outras e por esse motivo nunca se colocou no lugar de vítima, já que cresceu em um ambiente de amor e atenção junto de sua mãe e dos seus avós. Para Schwartz (2023), “enfrentar essa situação para muitas filhas significa confrontar o inacessível, as desilusões, traições e mentiras que também são promulgadas pela sociedade e pela cultura”. Podemos observar também o luto simbólico da filha, onde o pai não foi presente atendendo suas necessidades físicas e emocionais. A filha sobrevive a ausência desse pai, entretanto, em algum momento esse vazio irá se manifestar, “visto que ele continuou inconsciente, mas ainda assim proeminente.” (SCHWARTZ, 2023, p. 23)

4. LUTO PATERNO

A morte do outro configura-se como a vivência da morte em vida. É a possibilidade de experiência da morte que não é a própria, mas é vivida como se uma parte nossa morresse, uma parte ligada ao outro pelos vínculos estabelecidos. (KOVÁCS, 2013, p. 153)

Kovács cita o texto “Eros e Morte”, quando Eros abrigou-se na caverna da morte e ao acordar percebeu que suas flechas estavam misturadas, sem conseguir distinguir quais eram suas flechas e quais seriam as flechas da morte. E assim acontece o processo de luto da filha, que adormece diante da vida, onde as emoções se misturam e, então o amor reprimido pelo pai ausente, a dor do abandono e o medo do futuro dão as mãos e a filha não consegue nomear o que sente, somatizando conflitos e estagnado sua vida. Parks (2009) diz que o apego inseguro e o trauma colaboram para o desequilíbrio psíquico, causando problemas psiquiátricos.

Jung (2013) diz que a força que leva o pássaro a voar é o segredo que está no enraizamento do arquétipo do pai e não necessariamente no pai, pois vem dos ancestrais. Quando o pai é ausente, a filha não desenvolve uma relação com o animus e por consequência o aparecimento do complexo negativo paterno, em outras palavras, o trauma. A filha que vivencia o trauma da ausência paterna entra em contato com o luto simbólico e “quanto mais severas as feridas causadas pela ausência paterna, mais autônomos e ego distônicos ou inconscientes serão os complexos” (SCHWARTZ, 2023, p. 87) e integrar esse conteúdo é ameaçador para ego, mas só entrando em contato com o conflito interno que a psique consegue alcançar seu equilíbrio.

A protagonista relata que no início de suas sessões de terapia disse uma vez ao terapeuta que não tinha problemas em relação ao pai, que estava bem resolvida com isso. E ele me olhou e sorriu, como quem sabe das coisas. Depois de um tempo o pai veio a falecer e então os conflitos internos se intensificaram. Se antes ela tinha dificuldade de reconhecer a importância do seu pai, agora o luto se torna concreto. A partir desse contexto, é como se a filha tivesse que lidar com a morte da esperança, esperança que era alimentada inconscientemente buscando o amor e reconhecimento desse pai, pois só através dele, ela poderia reconhecer o seu valor. Quando o pai morre, a filha mata o Si-mesmo e a visão da realidade é distorcida “[…] deixando o mundo sombrio, muitas vezes sem esperança, até que seja compreendido.” (SCHWARTZ, 2023, p. 85).

Após a morte do pai, a filha precisa de uma vez por todas olhar para dentro. No filme, a protagonista revela que o falecimento de seu pai foi o início de uma onda avassaladora, de um sentimento total de desamparo, onde uma ferida foi aberta. Nesse momento, onde o luto passa de simbólico para concreto, a filha perde sua vitalidade, afogando-se em suas emoções e comprometendo o ego. E é nesse momento também que o Self começa sua manifestação, iniciando movimentos para resgatar o aprumo da totalidade, pois conteúdos reprimidos precisam ser integrados.

De acordo com Susan: O processo necessita que se entre nesse labirinto por meio do desejo, ansiedade, dor, luto e inconsciência a fim de se abrir a outras experiências. Ao confrontar as questões com o pai, a filha infringe o anteriormente pai idealizado, ausente de tantas formas, a fim de acessar o que é real. (SCHWARTZ, 2023, pág. 23)

A filha sente sua alma perdida e a psique se desconecta do corpo e então o sintoma inicia sua atividade, como forma de comunicar que algo precisa ser olhado. A descida a Hades é difícil, mas necessária, é o lugar de reencontro e resgate da alma. O sonho não está sendo compreendido e então o Self interage de outras maneiras, como por exemplo: o surgimento de um sintoma. “A filha se torna distante de seu eu vivaz e alinha sua existência ao pai morto.” (SCHWARTZ, 2023, p. 67)

5. PSICOSSOMÁTICA

A psicossomática é o campo de conhecimento que estuda a relação entre corpo-mente-espírito a partir da observação de sintomas físicos e emocionais. No filme, a protagonista relata que quando criança sonhava com uma onda gigante e que mais tarde veio a descobrir que sonhar com onda quer dizer “emoções reprimidas” guardadas no inconsciente. Ela relata também que aos 36 anos teve seu primeiro ataque de pânico e um ano depois foi diagnosticada com uma doença crônica. “A tortura é a provação implacável que promove a transformação a fim de que, “do Três, possa surgir o Um.” (EDINGER, 2006, p. 171) O desalinhamento da tríade: corpo, mente e espirito, dificulta no processo de gestação desse novo, ou seja, a integração dos opostos e o alinhamento dos diversos aspectos da psique humana são importantes para alcançar um estado de equilíbrio em busca da totalidade.

Ramos (2006) afirma que no desenvolvimento do processo simbólico os bebês reagem corporalmente a sentimento de medo e sensação de abandono. Isso leva a uma melhor compreensão do que foi mencionado anteriormente sobre o sentimento de medo da filha, diante da presença do pai. Entretanto, o medo não se instala em um processo mental, mas físico, gerando tensão e angústia. E a partir disso, aponto três representações diferentes como manifestação do inconsciente, afinal o Self, que é a totalidade, se comunica com a finalidade de se individuar. São eles: o sonho, sintoma emocional e físico.

A primeira manifestação e tentativa de comunicação do inconsciente com a consciência foi através do sonho. A protagonista relata que desde pequena sonha com uma onda avassaladora que ameaça levar tudo ao seu redor, mas quando a onda estava prestes a levar tudo, ela acordava com o cheiro do café de sua avó e então se acalmava. “O sonho pode ser visto como tentativa de alterar diretamente a estrutura de complexos sobre os quais o ego arquetípico se apoia para a identidade em níveis mais conscientes.” (HALL, 2021, p. 41). O sonho, ou melhor dizer, o inconsciente, tenta, mas ainda sim depende do ego compreender e integrar, visto que ele personifica tudo, criando uma realidade a qual se pode suportar, ou seja, para a protagonista, era um mecanismo de defesa para lidar com aquela realidade, onde Schwartz (2023) chamou de ego-ilusório e ego-real, onde o ego-ilusório representa uma base em ilusões, desejos e fantasias e o ego-real seria a aceitação da realidade, uma representação mais autêntica e verdadeira de si. O que acontece é que na fase do luto, o ego precisa se defender, afinal é um momento de grande ameaça as estruturas do ego, uma vez que todas as emoções estão próximas à superfície. Podemos encontrar em Poseidon (o deus do mar ou portador de inundações), um caminho para compreender a experiência relatada pela protagonista, visto que ele representa o reino da emoção e do instinto. Bolen (2002, p. 114) apresenta Poseidon: “Ele pode ser turbulento com ondas monumentais […] se abatem sobre tudo o que estiver em seu caminho com força destrutiva […]. Nos sonhos e nas metáforas, o mar representa o inconsciente.” É importante ressaltar que a amplificação dos símbolos oníricos faça sentido pelo sonhador, assim como no filme a protagonista reflete: que emoções reprimidas são essas?!

O segundo seria a comunicação através do sintoma psicológico: a síndrome do pânico. O distúrbio de pânico está classificado dentro do transtorno de ansiedade. De acordo com o DSM-5-TR (2023), o transtorno de pânico é caracterizado por ataques de pânico inesperados, crises de medo e pavor e/ou desconforto intenso e pode ocorrer quatro ou mais de uma lista com treze sintomas físicos e cognitivos. Dessa série de sintomas, tirando o medo, que por si só já se revela, quero citar a despersonalização (distanciamento de si) e o medo de morrer, visto que os relatos da protagonista no filme é a sensação de que iria morrer — dessa vez não mais pela onda — e sentimento de desconexão interior, perdendo a vontade de viver.

O mito do Pã também é um caminho para compreender esse transtorno que tanto assusta e amedronta. Segundo Machen (2024), o deus Pã era louvado por pastores como um deus protetor contra ameaças e ao mesmo tempo que era venerado, era temeroso. No momento que as crises de pânico se manifestam, acontece a desconexão entre corpo-mente, onde o eixo ego-Self “perde o sinal”. Segundo Neumann (1991), o termo eixo ego-self seria a conexão que o indivíduo necessita para equilibrar o mundo externo e o mundo interno, caso esse equilíbrio não aconteça e o indivíduo fique conectado apenas a um polo, isso pode lhe causar desequilíbrio e virar sintomas. Portanto é importante estabelecer a conexão entre o ego-Self permitindo equilíbrio entre a consciência e o inconsciente, agora que essa desconexão se apresenta, a totalidade se comunica por outro canal, se antes era através dos sonhos, agora é por meio de sintomas psicológicos.

Kast (2023), escreve com muito cuidado sobre os ataques de pânico afetar geralmente as mulheres e afirma que os ataques são comuns e acontecem normalmente na idade adulta. No livro “A doença como símbolo” de Rudiger Dahlke, o medo pode estar associado a um trauma no nascimento não-assimilado e a partir disso faz alusão de vivenciar novamente esse nascimento e integrá-lo à consciência e o pânico é visto como conflito sobre o fim da vida. Tanto o medo quanto o pânico, conduzem a sentimento de fuga, a respiração fica acelerada, estreiteza opressiva (encolhimento) e paralisação, sendo necessário confrontar-se com o deus Pã para se libertar.

Segundo Arantes, em sua obra “A morte é um dia que vale a pena viver” a autora fala sobre sua experiência como médica e com muita sensibilidade escreve sobre o mundo da psicologia assim: Sempre digo que medicina é fácil. Chega a ser até simples demais perto da complexidade do mundo da psicologia. No exame físico, consigo avaliar quase todos os órgãos internos de um paciente. Com alguns exames laboratoriais e de imagem, posso deduzir com muita precisão o funcionamento dos sistemas vitais. Mas, observando um ser humano, seja ele quem for, não consigo saber onde fica sua paz. Ou quanta culpa corre em suas veias, junto com seu colesterol. Ou quanto medo há em seus pensamentos, ou mesmo se estão intoxicados de solidão e abandono. (ARANTES, 2019, p. 28)

Antes das crises de pânico se manifestarem, o inconsciente se comunicava por outra via: os sonhos e, como não foi compreendido, as crises de pânico podem representar esse segundo caminho. É possível observar que no sonho o sentimento que a protagonista relata é o mesmo diante o seu diagnóstico psicológico, sentimento de angústia, medo e pânico. “Os ataques de pânico são ataques de angústia aguda completamente imprevisível, a pessoa experimenta uma ameaça mortal que não pode ser combatida e que deixa a pessoa indefesa.” (KAST, 2023, p.132). Schwartz (2023) afirma que a filha que cresce sem o pai, tem tendência a desenvolver-se uma criança insegura e desconexa de si, afinal ela só se reconhece quando o pai a reconhece.
A terceira tentativa de comunicação do inconsciente foi através de um sintoma físico. A protagonista relata que após o falecimento de seu pai teve sua primeira crise de pânico e um ano após as crises, foi diagnosticada com uma doença crônica. A doença crônica Dahlke (2000) pode afetar todo organismo, a pessoa sente medo a ponto de paralisar, estagnar diante da vida e tudo isso se dá pela somatização da sombra, visto que negou-se a olhar para os conteúdos inconscientes. Kast (2022), diz que devemos nos questionar por que a mulher não aproveita a potência contida na sombra? Afinal, ela também abastece vitalidade e criatividade. No filme não é revelado, mas em entrevista, Ludmila Dayer revela o diagnóstico de Esclerose Múltipla. A esclerose múltipla é uma doença autoimune que compromete a parte motora do indivíduo. A pessoa com essa condição muitas vezes é agressiva consigo mesma, sente medo de perder o controle e recusa o feminino em si. “A autoimunidade demonstra um movimento duplo; proteção e destruição, ameaça e acaso.” (SCHWARTZ, 2023, p.272). Emoções reprimidas, não digeridas, não elaboradas, somatiza o corpo e manifestam-se mais tarde como doença.

Aqui está presente uma forma arcaica de simbolismo em que o corpo fala. Um sintoma, nesse sentido, corresponde a uma representação simbólica de uma desconexão ou perturbação no eixo ego-Self, e pode ser corporal “doença orgânica”) ou psíquico (“doença mental”). (RAMOS, 2006, p. 62)

6. PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Jung escreveu:

“Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si- mesmo. Podemos, pois, traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung).” (JUNG, 2015, p. 63)

Para entender melhor o processo de individuação, vou voltar no conceito de complexo, que segundo Von Franz (2018, p. 33) “[…] são os pequenos diabos que nos atormentam durante a vida.” Os complexos afetivos são inconscientes, enquanto o complexo do ego é o único consciente. Todo conflito tem uma raiz e a raiz do complexo é o arquétipo. Por exemplo, o complexo paterno tem sua raiz arquetípica, que seria o arquétipo patriarcal, que se origina do arquétipo do pai. E como agora entramos no tema da individuação, o arquétipo do ego é o Self.

Jung explicou em suas obras o conceito de individuação como tornar-se quem se é e que esse processo se daria na segunda metade da vida, visto que o ego percorreu boa parte do caminho, o que foi necessário para estruturar a persona. Por detrás da máscara da persona está a sombra e nessa segunda etapa da vida o ego precisará confrontar-se com ela, visto que o Self quer se realizar, quer se individuar. A protagonista se pergunta por que mesmo reconhecendo que se está no piloto automático é tão difícil sair dele?! E mais adiante, relata que por muito tempo reprimiu suas emoções como mecanismo de defesa e criou máscaras, mas que não eram suficientes para sustentá-las quando ativava um gatilho.

Lima diz assim: Considerando-se que os temas que formam os complexos se aglutinam por critérios de ordem afetiva, e que esse afeto procura meios de descarga, pode- se aqui reforçar a pertinência de sua articulação com a compulsão à repetição. Com vistas à descarga afetiva, o complexo age de forma autônoma em relação às intenções conscientes do Eu e exerce sobre o sujeito – de forma compulsiva e repetitiva -, um poder de atração para situações que permitiriam reviver e “curar” a ferida emocional. A possibilidade de “cura” se dá justamente porque existe um componente emocional compartilhado entre a situação atual e a vivência que originalmente provocou a ferida. (LIMA, 2012)

Para que o processo de individuação caminhe de maneira efetiva, é importante o despertar da consciência, ou seja, o ego precisa estar disposto a olhar para esses conteúdos inconscientes alinhando-se ao Self com o objetivo de ressignificar traumas e ampliar a consciência. Quando Lima fala sobre ferida emocional, no contexto do filme, podemos observar o complexo paterno negativo, a sentimento da filha abandonada acompanha a filha mesmo que ela não se dê conta e a situação atual e a vivência original seria representada pela relação pai-filha — que não existiu — e a notícia da morte do pai — quem originou o próprio trauma.
A protagonista conta que tudo estava caminhando bem dentro do possível, mas parece que algo vem para mudar de vez o caminho que estamos.

O inconsciente já se comunicava através do sonho ou pesadelo que a protagonista relata sonhar desde a infância. Isso nos mostra que a falta do pai e o sentimento de vazio não eram de hoje, sempre existiram. Segundo Von Franz (2018), o pesadelo é um alerta do inconsciente dizendo que você corre perigo, não no mundo externo, mas no mundo psicológico. Acontece é que ao longo da vida foram reprimidos, visto que a protagonista conta que sua história é semelhante a de muitas outras e que ela não se sentia vítima, pois cresceu rodeado de amor da mãe e dos avós, logo podemos observar o que Kast chamou de sombra da família:

[…] uma sombra sobre a identidade dos membros da família e impede que eles conheçam a si mesmos, a sua própria identidade, pois sempre há alguma dissonância que não deve ser nomeada. Ver a sombra, aceitá-la, assumir responsabilidade por ela significa também sentir-se mais em harmonia consigo mesmo. (KAST, 2022, p. 159)

O Self representa o passado, o presente e o futuro, ele é a totalidade, enquanto o ego só enxerga uma pequena parcela da vida. O ego é o centro da consciência e o Self o centro da personalidade, como definiu Neumann (1991). O processo de individuação ocorre através da conexão entre o eixo ego-Self.

É importante ressaltar a diferença entre individuação e individualidade. A individuação está ligada ao desenvolvimento psicológico, enquanto a individualidade está relacionada a questões pessoais do indivíduo e sua dinâmica ego-persona. É por intermédio da persona que nos relacionamos com o mundo externo e o que acontece é que na metanoia o Self não quer mais servir as vontade e limitações do ego diante do que a sociedade impõe e sim a realização do inconsciente como disse Jung (2021, p. 25): “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou.”

No filme a protagonista conta que por mais desconfortável que suas feridas fossem, elas precisavam ser processadas e a partir disso observamos um ego amedrontado que necessita ajustar-se ao Self para estabelecer o equilíbrio psíquico.

Para compreender o processo de individuação, a travessia será pela alquimia que segundo Von Franz (2018, p. 32) “a alquimia é uma via introvertida, consiste em contatar a matéria, não a partir dos meios extrovertidos, ao exterior, não a medindo, mas contatando-a com o interior de si próprio.” As fases alquímicas: Nigredo, Albedo e Rubedo. Tem outra fase não muito falada: a citrinitas, que representa “o despertar inicial”.

O declínio da alma acontece quando a protagonista se desconecta de si, matando o Si-mesmo lentamente junto com o pai morto e entrando na fase alquímica chamada nigredo. Uma representação para essa fase seria o deus Hades, que Bolen (2002) apresenta como o deus do submundo ou do mundo inferior, reino do inconsciente e da alma “perdida”. Gise (2023, p. 12) “Senti um verdadeiro pânico, pensei que fosse o fim, mas na verdade foi o começo.”

O que move as fases alquímicas são as operações, por isso a importância do autoconhecimento, de se conhecer, entender e aceitar o momento que está e os movimentos que precisam ser feitos, ou seja, isso possível enxergar essas possibilidades de cura e transformação quando estamos em conexão com o mundo interior, como diz Jung (2015) a psicologia em sua compreensão mais profunda, é autoconhecimento. A protagonista relata que se preocupava em agradar ao outro, era controladora, rígida consigo mesma, vivia sempre acelerada e quando se deu conta tudo estava cinza e sem sentido, mas não admitia que precisava de ajuda.
É confrontando a sombra que a iluminamos. É enfrentando o deus Pã que se perde o medo. É aceitando a vulnerabilidade que soltamos a corda da rigidez e do controle.

Ramos em sua obra “A psique do corpo” conta sobre um caso e escreve: O desenvolvimento de uma doença autoimune abriu um caminho para chegar-se às cinzas. Esta era a experiência psicológica e física de Rana, do estágio alquímico chamado de nigredo (uma escuridão, decomposição e dolorosa perda de direção). Ela descreveu-o como algo escuro, desagradável, desconcertante, desorientador, uma doença de espírito. (RAMOS, 2006, p. 272)

A visita a Hades é inevitável e a protagonista descreve essa fase como um caminho solitário, difícil e cheio de dor, e que muitas vezes sentiu vontade de desistir.

O que nossa época vê como sombra e inferioridade da psique humana contém mais do que algo puramente negativo. Já o simples fato de que através do autoconhecimento, através da investigação da própria alma, nós nos deparamos com os instintos e seu mundo de imagens, pode constituir um passo no sentido de esclarecer as forças adormecidas de nossa psique que, embora presentes, passam quase desapercebidas. Trata-se de possibilidades de intensa dinâmica, e a questão se a irrupção dessas forças e visões a elas relacionadas conduz a uma construção ou a uma catástrofe depende apenas do preparo e da atitude da consciência. (JUNG, 2013, p. 64)

A força interna impulsionou para a próxima fase, a albedo. A fase da albedo pode ser representada pelo autoconhecimento, a busca por mudanças internas, momento em que o ego se ajusta ao Self e a começa a transformação do mundo interior, aceitando e ressignificando. No filme, essa fase representaria o momento que a protagonista relata sobre o início da terapia, defrontando com suas emoções que jamais tinha consciência, mas que comandavam sua vida, como dizia Jung sobre ser guiado pelo inconsciente e chamar de destino. Aos poucos a protagonista foi entrando com as camadas mais profundas de seu mundo interno e encontrando sentido. Von Franz (2018), é nessa camada que está a cura. Hoje ela compreende que não teve o pai que desejava, mas o pai que precisava e que diante de tudo que aconteceu, ele deu tudo que ele tinha para dar. A protagonista compartilha que por muito tempo rejeitou e anulou o pai na sua existência, mas que hoje reconhece a importância da figura dele em sua vida e que hoje se sente completa, pois aceitou metade de si e desde então nunca mais teve crises de pânico. Hoje ela enxerga a importância de unir os dois polos, não seguir só a razão, mas também o coração — o amor — afinal “Eros é o guia, é ele que a alma procura” (PARISI, 2012).

Outro ponto interessante de mencionar é a espiritualidade como um caminho para a conexão interior, ajudando no processo de individuação, visto que corpo- mente-espírito, precisam estar alinhados para o funcionamento saudável da psique. Como Jung diz no livro “Espiritualidade e Transcendência” quem descarta essa linguagem da psicologia, acusando como recurso anticientífico “[…] trata-se de uma certa falta de cultura, inteiramente ignorante de qualquer crítica histórica […]”, visto que é ponte para conexão interior e expansão de consciência.

No filme, como mencionado anteriormente, outros profissionais participam, como o autor e astrólogo, que mostra o mapa gestacional e convencional como caminho alternativo para o retorno interior e de compreensão de quem se é, uma ferramenta que ajuda a estabelecer uma relação mais verdadeira e profunda consigo e com o mundo. Greene (2023, p. 282) autora que fez o maior levantamento histórico sobre os estudos de Jung na área da astrologia, ela escreve: “[…] sua abordagem dos ciclos coletivos incorporou os mesmos modelos psicológicos que sua percepção da dinâmica psíquica no indivíduo: arquétipos, tipologias, complexos e indicadores astrológicos como símbolos das qualidades do tempo.”

A médica, mentora e consteladora familiar, fala sobre o acúmulo de carga cultural, familiar e do meio social, que nos molda e faz com que nos distanciamos da nossa essência, colaborando para o mal funcionamento do nosso sistema endócrino envolvendo hipófise, hipotálamo e glândulas que hoje muito é falado na espiritualidade. A xamã desempenhou um papel fundamental no processo espiritual e consequentemente ao processo de individuação da protagonista, onde a mesma relata que o mapa gestacional foi seu guia, permitindo acessar traumas que desconhecia sobre a sua gestação, desbloqueando-os, aprofundando e acelerando seu processo terapêutico.

A protagonista cita os estudos de David R. Hawkins sobre os níveis de consciência e a xamã da continuidade falando sobre o que está acima de duzentos hertz considera alta frequência e tudo que está abaixo de baixa frequência. De forma simbólica e sensível, Kast traz a árvore como uma representação do processo de desenvolvimento do ser humano assim: Muitas vezes, simbolicamente, o processo de individuação se apresenta no processo de crescimento, sobretudo no crescimento de árvores. As árvores parecem ser muito apropriadas como objetos de projeção para o processo de individuação do ser humano. Como o ser humano se posta ereto no mundo, também as árvores assim se postam no espaço: elas deitam mais raízes do que nós, mas nós também nos recordamos das raízes; elas devem erguer-se até às alturas, crescer até sua morte; uma vez tendo se erguido nas alturas, elas têm de ficar de pé, resistir, conservar-se firme, como nós também fazemos. Na sua coroa elas se desenvolvem, produzem frutos, tornam-se fecundas, se dispersam pelo mundo. Sua coroa é igualmente um teto, é uma cobertura e proteção, oferece guarida aos pássaros. A árvore está ligada com a terra, com a profundidade, com a água; a árvore está ligada com o céu. Assim como a árvore, nós seres humanos estamos postados entre o elevado e o baixo. (KAST, 2016, p. 18)

A ponte entre a albedo e rubedo é chamada de citrinitas: o despertar, aquele momento por exemplo que se diz “não sei de onde tirei forças” e Kast (2016) nomeia como “[…] um sentimento vital […] força de atuação inesgotável ou […] pausa criativa. Observamos um salto de consciência, um despertar, uma lanterna acesa. A citrinitas representa muito bem essa força interior e representa o momento que a protagonista diz: “E foi lá na minha dor que eu ouvi o meu chamado”. E então a passagem para a próxima fase alquímica: a Rubedo.

A rubedo representa a iluminação. É a fase que a protagonista reconhece o que é do outro, compreende e aceita, sendo capaz agora de criar novas crenças de cura e libertação. A protagonista estava decidida e mergulhou em seu processo terapêutico, aceitando sua história como foi, afinal não era mais o pai que travava sua vida e sim a figura que ela internalizou paralisando sua própria vida “[…] já não são um substituto, mas a realidade que corresponde a uma consciência mais elevada.” (JUNG, 2013 p. 68). As pessoas que conheci no caminho de cura foram meus grandes mestres. E para enxergar o valor do outro, eu precisava reconhecer meu próprio valor.” Kast (2024) diz que mulheres que se conectam com o meio e tem trocas saudáveis, têm mais autoconfiança e sabem lidar melhor com a ansiedade. Por fim, é nessa fase que a sombra é integrada e por consequência a ampliação da consciência.

7. DISCUSSÃO

Os resultados da análise do filme ‘EU’ e da revisão bibliográfica indicam que a ausência do pai pode prejudicar significativamente o processo de individuação da filha, como demonstrado tanto nas observações fílmicas quanto nos estudos teóricos revisados. No entanto, é importante reconhecer as limitações desta pesquisa, incluindo a possibilidade de vieses nas fontes selecionadas e a necessidade de mais estudos empíricos para corroborar estas descobertas. Futuras pesquisas poderiam focar em abordagens longitudinais e estudos de caso específicos para aprofundar a compreensão desta dinâmica.

O processo de individuação da filha está relacionado ao vínculo ou a relação estabelecida entre pai e filha, tanto fisicamente, quanto emocionalmente. Embora o tema ainda seja limitado, é possível encontrar estudos que trazem o feminino em diversos temas distintos a esses, mas que pode levar a uma compreensão dos possíveis caminhos que o processo de individuação da filha pode tomar. Na tese de Parisi, na pesquisa de Lima e na teoria junguiana nos leva a uma profunda compreensão e conexão com o mundo feminino e seu desenvolvimento em relação a ausência paterna. Parisi escreve sobre “Separação amorosa e o processo de individuação feminina” e Lima sobre “Mulheres e o abandono da figura paterna”, trilhando o mesmo caminho, já que a raiz é uma só, a relação com a figura paterna.

Isso nos mostra que o impacto da ausência paterno pode prejudicar a filha tanto na sua relação com o meio, como consigo mesma, como foi possível observar no desenvolvimento do trabalho.

O tema é relevante e contribui para diversas áreas do conhecimento como a psicologia, a educação, a medicina, a espiritualidade e o autoconhecimento. Assim como no filme, onde profissionais de diversas áreas do conhecimento se unem e integram a totalidade, se formos pensar por essa via, afinal o próprio Jung estudou diversas áreas do conhecimento para compreender o psiquismo. Por mais que tenha se formado em medicina, Jung nunca ignorou o outro lado, sempre com o objetivo de explorar a psique humana em sua totalidade, em sua integridade, visto que a psique humana é complexidade, portanto nessa pesquisa fica claro e evidente que ciência e os mistérios ocultos caminham juntos, por uma via intermediária, por um campo sutil que os olhos não podem ver, mas o corpo pode sentir.

A cronologia apresentada no trabalho ficou clara e de fácil compreensão, visto que a ideia não é conscientizar profissionais da área da saúde mental, mas com o público leigo, como as próprias filhas e até mesmo os pais. O trabalho inicia com a “relação pai-filha”, onde é possível observar os diversos caminhos que a individuação pode ir se moldando, através da importante contribuição de Bowlby com a teoria do apego, de Schwartz sobre a ausência do pai na vida da filha, de Neumann que pesquisou o desenvolvimento da criança e Fordham observou e atendeu crianças e estudou o indivíduo desde o início da vida como a vida intra-uterina e o próprio Jung que dedicou sua vida para compreender o funcionamento do inconsciente. Nessa relação pai-filha respondeu a pergunta central deste estudo, ou seja, as filhas que crescem com a figura paterna ativamente ajudando em seu desenvolvimento psicológico, emocional e físico vivenciaram o processo de individuação com autoconfiança e independência, já as filhas que crescem sem a figura paterna ao longo da vida pode ter grandes prejudicou psicológico e físicos, como aponta Parks em seus estudos sobre o trauma e os crescentes quadros psiquiátricos.

No filme, o enredo vai tomando forma quando a protagonista começa a falar sobre a relação com o seu pai, onde a figura paterna se apresentou ausente, causando um vazio na vida da filha, vazio esse que por muitas vezes foi preenchido de compreensão, visto que não poderia falar sobre essa falta, muito menos se sentir vítima, já que sua mãe e avós sempre estiveram presentes e que cresceu rodeado de amor. O que acontece é que esse vazio jamais será preenchido e reprimir suas emoções não é um caminho, inclusive esse sentimento de vazio acompanha a protagonista desde sempre e podemos observar no sonho que ela apresenta, onde uma onda ameaça levar tudo à sua volta, representando suas profundas emoções, que necessitavam ser processadas, caso o contrário, mais tarde poderia vir como manifestações físicas. Se o sentimento de abandono era reprimido pela excessiva compreensão de que cresceu rodeado de amor e como a história dela, tem tantas outras na sociedade, logo está tudo bem, mas não para o inconsciente que precisa da figura paterna para se desenvolver e alcançar seu potencial. E então, encontramos no “O luto paterno” o fim desse ciclo de repressão.

No luto paterno é possível observar que a postura adotada pela protagonista em anular a figura do pai não sustentava mais o inconsciente. Aparentemente tudo estava sob controle, mas a verdade é que o corpo estava somatizando essa ausência. O inconsciente tinha a leitura perfeita: o abandono paterno. E é claro que o ego para lidar com essa ameaça, sempre buscou caminhos que fossem mais fáceis de lidar com esse vazio, ou seja, reprimindo suas emoções durante o luto simbólico. O ego conseguiu sustentar esse mecanismo de defesa até a morte concreta do pai, após o falecimento desse pai podemos observar o declínio da alma.

O arquétipo do pai é potente e insubstituível. A filha pode crescer rodeada de muito amor e carinho, mas a filha em algum momento da vida precisará olhar para essa estrutura, uma vez que essa parede não foi erguida com os materiais necessários. A estrutura psicológica desenvolve com uma “deficiência” e então a formação de um ego enfraquecido, que vai buscando ao longo da vida referências e sentido, mas em algum momento o Self precisará cobrar, afinal ele precisa se desenvolver e esse desenvolvimento acontece por intermédio do ego. O ego precisa estar estruturado para desenvolver seus potenciais, caso essa estrutura não esteja firme, ela pode vir a desmoronar, como aconteceu no filme. Até então era possível controlar tudo, mas com a morte concreta do pai, a protagonista precisou olhar para dentro. Após a morte do pai, a filha foi diagnosticada com síndrome do pânico e uma doença crônica, a esclerose múltipla, que não é falada no filme, mas revelada em uma entrevista.

O caminho percorrido até aqui podemos compreender como processo de individuação para os pós Junguianos, como por exemplo para Fordham e seu conceito de deintegração e reintegração, ou seja, morte e renascimento, processo que
acontece desde o início da vida, mas que para Jung acontece na segunda metade da vida, pois antes disso o ego está pesquisando e colecionando experiências. Entre esses dois pensamentos, podemos encontrar o caminho do meio, compreender que sim, o processo de individuação acontece desde o início da vida, mas que na segunda metade da vida é como se fosse o último chamado da alma, não temos mais tempo, é hora de trilhar esse caminho de dentro, mas quando esse chamado não é captado pelo ego, o inconsciente precisará se comunicar de outras formas, como o aparecimento de doenças emocionais e físicas. Nesse momento a filha precisará olhar para sua história real e não a que foi criada pelo ego como mecanismo de proteção.

No contexto cultural e social, o trabalho é relevante, pois busca compreender a ausência paterna e a evolução do arquétipo patriarcal, que tem sua origem no arquétipo do pai. Na contemporânea podemos examinar a mudança desse arquétipo, de modo que hoje o sistema familiar teve grandes transformações, onde é possível ver mulheres ocupando o mercado de trabalho em diversas áreas e o pai mais ativo e envolvido na educação e no desenvolvimento emocional dos filhos. Claro que não é se pode generalizar, mas fica claro como o arquétipo vem mudando sua forma e como pode trazer inúmeros benefícios à sociedade quando o homem toma consciência de seu papel na vida da filha. Afinal a responsabilidade com a criança é de ambos os pais e o estudo mostra que aquela ideia arcaica de que o pai é autoridade e responsável pelo sustento do lar e a mãe é responsável pelo desenvolvimento emocional e físico da filha não se sustenta mais nos tempos de hoje, sendo importante buscar equilíbrio das duas partes em relação a criação da filha.

Por último, a pesquisa responde a segunda pergunta central do trabalho, após as descobertas dos impactos da ausência do pai no desenvolvimento da filha, quais os caminhos possíveis para a individuação da filha e compreendemos que é possível ressignificar a dor do abandono, do luto simbólico e concreto. É importante reconhecer a dor, a falta e o vazio, assim como é de extrema importância processar as emoções e isso não te coloca no papel de vítima, mas de um ser consciente que analisa, sente e aceita sua história. O caminho não é fácil, mas é possível e nos leva a seguinte reflexão: o que faço com o que me aconteceu? E a partir dessa aceitação e entendimento, é chegado o momento da transformação.

O processo alquímico nos traz maior entendimento de como o processo de individuação acontece e como sabemos, o processo de individuação tem diversos caminhos e ferramentas, como a própria ciência, o processo terapêutico e de autoconhecimento, a astrologia para impulsionar e “acelerar” a compreensão dentro do processo terapêutico, a conexão com a natureza e com a espiritualidade e ferramentas como a meditação, imaginação ativa como Jung aprofundou em suas obras, a arteterapia, a dança e a música. Alguns caminhos explorados na pesquisa e outros que ficam de sugestão para futuros estudos, como caminho para a individuação. Para explicar as operações e as fases do processo alquímico usarei pequenos trechos de música para exemplificar. As fases alquímicas como apresentadas e exploradas no trabalho são elas: a nigredo, a albedo, a citrinitas e a rubedo. E as operações alquímicas não apresentadas é que serão exploradas aqui, são elas: a calcinatio (fogo), a solutio (água), a coagulatio (terra), a sublimatio (ar), a mortificatio (morte), a separatio (discriminação) e a coniunctio (integração).

Na música “do nosso lado”, representa a relação ego-Self, diz assim: “Tive que ver meu castelo cair e eu sei que sente. Tive que voltar de onde eu vim, mas a vida te surpreende. Tudo que puxa pra baixo, te empurra pra cima, de dentro pra fora, na missão, coração, tudo na vitória”, e que pode ser simbolizada pela fase da nigredo (escuridão) e pela operação alquímica mortificatio, onde a protagonista passa por um processo doloroso, solitário, mas que te impulsiona para a individuação e realização de seu potencial. A morte espiritual é a sua ressurreição após a provação.

Na música “meu escudo” pode ser correspondida pela fase da albedo (purificação), o compositor diz que Jah (Deus/Self) nunca vai te deixar, mesmo diante dos medos, segredos e desafios, ele é o seu escudo, o teu confidente mais sincero e que quando o indivíduo está em desalinho após uma onda ameaçadora, é ele que nos levanta do chão e guia para um novo caminho. Onde nos traz o entendimento que diante de qualquer conflito, como o da própria protagonista que sonha com uma onda avassaladora que representa a operação da solutio (inundação de emoções), o contato com Poseidon, o senhor das águas e o com o pã, que conversa com o medo e a insegurança da protagonista, mas que diante de tudo existe uma instância maior que está buscando o equilíbrio psíquico, o Self.

A fase da citrinitas, a música “nada vai nos parar” caracteriza essa fase dizendo que só o indivíduo tem controle de sua vida e que sempre haverá um norte, pois existe uma força maior que nos governa e essa força nos levanta, quando silenciamos e ouvimos seu sussurro, “já levei tombo da vida, já lutei causa perdida, o que não mata fortalece, hoje eu tô sagaz”.

A protagonista nessa fase onde atravessa a ‘ponte do despertar’ entre a albedo e a rubedo, é representada pela operação da calcinatio, onde o pensamento ferve a inundação e pela separatio (corte energético), momento que é separado e discriminado conteúdos acumulados durante a vida, que se transformam em crenças limitantes e após essa operação estabelece o equilíbrio da psique, onde as crises cessaram e a cura da doença crônica.

A iluminação é representada pela rubedo e na música “cheirosa” diz que foi realizado tudo que almejou, mas que pra conquistar teve que insistir alimentando o melhor em seu mundo interno e que nessas horas o amor transborda, crescendo para o céu, mas mantendo as raízes no chão. A filha compreendeu e aceitou tudo que lhe aconteceu, honrando seu pai e entendendo que para ela ser inteira ela precisava integrar o que rejeitava, a figura paterna. Nessa fase quem opera é a coagulatio que torna concreto e cristaliza essa tempestade e, a sublimatio, ressignificando a ausência paterna, elevando o espírito, tornando o “fardo mais leve”. A última operação, que Jung escreveu muito sobre, é a coniunctio, que simboliza a integração dos opostos, do chumbo ao ouro, da nigredo a rubedo. Como disse Fordham, a deintegração e a integração, a morte (o fim), para o recomeço, para o novo, afinal antes de vivenciar qualquer luto, ela viveu a perda de si mesma e reconquista a conexão com seu mundo interior, com seu Self, alcançando o estado numinoso.

O trabalho caminha desde a raiz do conflito até a sua elevação. Passando pelas estruturas do ego e suas dinâmicas, a formação dos complexos, os arquétipos, o surgimento da sombra, a persona, os mitos, os sonhos, a somática, os símbolos e a individuação. Como diz Jung em “Adaptação, individuação e coletividade”, de nada adianta o isolamento para a transformação em um aspecto coletivo se não retornarmos deste isolamento com um entendimento que possa contribuir para a sociedade e aqui é apresentado o isolamento social de uma pesquisa que tem como objetivo contribuir para o coletivo, visto que este estudo leva a muitas raízes que precisam ser exploradas e que conecta a todos nós. É universal.

8. CONSIDERAÇÃO FINAL

Este trabalho teve como objetivo analisar a relação pai-filha desde o início da vida até a fase adulta com base na psicologia junguiana. As principais descobertas nos trazem aspectos como a formação da identidade, autoimagem e a capacidade de estabelecer relacionamentos saudáveis consigo e com os outros, mas também traz a ideia de quando essas descobertas não são integradas para a consciência o dano que pode causar ao corpo e as relações como um todo, prejudicando o processo de individuação em sua totalidade. A pesquisa enfatiza a importância do pai presente e amoroso na vida da filha, visto que através dessa interação a filha desenvolve autoconfiança, habilidade social, resiliência e independência.

O estudo contribui para atuação dos psicólogos na clínica, psiquiatras, médicos, educadores e pais, promovendo conscientização coletiva, visto que a figura do pai e a mudança do arquétipo do pai, antes vista como autoridade e proteção, vem ganhando um novo enquadramento social e cultural na construção do sujeito, como participação ativa na educação, na vida emocional e na igualdade de gênero, afinal a responsabilidade do desenvolvimento saudável da criança é de ambos os pais. As limitações da pesquisa estão relacionadas ao estudo da relação pai-filha e principalmente ao luto paterno, seja simbólico ou concreto, o que aponta para sombra coletiva do feminino. É importante refletirmos sobre como a figura paterna influencia no desenvolvimento emocional e psicológico da filha, podendo impactar a sociedade como um todo olhando por um prisma coletivo do papel da mulher na sociedade.